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NEUROCIÊNCIA DA VIOLÊNCIA, NÚCLEO ACCÚMBENS E O CIÚME
Recentemente os autores Monika Lück e Daniel Strüber colaboradores da liga
Hanseática de Cientistas em Delmenhorst, Bremen (Alemanha) e Gehard Roth
professor coordenador do instituto de estudos do cérebro da Universidade de
Bremen publicaram um artigo discutindo os aspetos da violência e suas relações
anátomo-fisiológicas com o sistema nervoso central. Em 2005 esse grupo de
pesquisadores publicam um artigo que trata das raízes psicobiológicas da
violência física avaliando situações onde as pessoas se envolviam em brigas com
socos e pontapés até lesões corporais graves e homicídios.
A conclusão que estes pesquisadores chegaram mostra que o comportamento
violento não pode ser atribuído a uma única causa – tendência inata, patologia,
ambiente desfavorável ou experiências dolorosas. Segundo estes autores é preciso
considerar a combinação de fatores de risco que reforçam e se influenciam
mutuamente.
O perfil dos homens que revelam logo cedo tendência violenta, mostram baixa
tolerância à frustração, dificuldade em aprender regras sociais, problemas de
concentração, capacidade reduzida de compreensão dos sentimentos das outras
pessoas e inteligência defasada. No entanto o que mais chama atenção é a falta
de contenção psíquica, que os faz passar do sentimento ao ato quase de se
defender. Posteriormente, muitas vezes mostram arrependimento. Esses
delinqüentes frequentemente assumem uma posição de liderança em seu grupo – e
sentem-se valorizados com isso, o que alimenta um circulo vicioso. O maior grupo
é composto por aqueles que apresentam atitudes agressivas numa faixa entre 13-15
anos de idade. As pesquisas mostram que o principal “fator de risco” é pertencer
ao sexo masculino. Os homens tendem à violência física direta enquanto às
mulheres recorrem à agressão dissimulada, realizando intrigas e pressões
psicológicas. As meninas possuem um pico de incidência na fase da adolescência
entre os 17-18 anos de idade – geralmente desaparecem devido às alterações
hormonais presentes nesta fase. Diferenças neuropsicológicas também exercem
influência nas manifestações de agressividade de ambos os sexos.
A impulsividade de criminosos violentos crônicos parece ter como base uma
predisposição cerebral. Anátomo-fisiologicamente, quando comparado a indivíduos
normais, o cérebro de criminosos possuem alterações fisiológicas no córtex
pré-frontal e no sistema límbico. Efeitos inibitórios sobre partes do sistema
límbico provém de vias hipotalâmicas e também do complexo amigdalóide.
Acredita-se que pessoas violentas possuem uma desrregulação entre o córtex
cerebral e o sistema límbico propriamente dito. Lesões observadas no córtex
pré-frontal de feridos de guerra mostraram ter grande relevância nos seus
comportamentos agressivos. No entanto, o ambiente vivido na guerra deve ser
considerado como um fator que predispôs o indivíduo a agressividade. No entanto,
em diversos indivíduos com lesões frontais mas que vivem em ambientes “normais”
há uma apresentação muito semelhante de agressividade.
Contudo, quando o cérebro é originalmente afetado, desde nascença ou
acometido por tumores numa fase bem precoce de vida (primeiros anos), com
posterior remoção desse córtex, crianças com tumores cerebrais apresentavam
distúrbios de comportamento anos mais tarde: problemas na escola, dificuldade de
motivação, embotamento social, em algumas circunstâncias mostravam
agressividade. Nas mulheres, no entanto, parece ser menos pronunciada a relação
entre o volume de córtex pré-frontal diminuído e agressividade. As mulheres
parecem ter maior controle sobre seus impulsos em relação aos homens
Apesar dessa hipótese do cérebro frontal, pesquisadores avaliaram situações
onde não havia a presença de crimes cometidos por impulso, por crises emocionais
mas sim crimes planejados, pensados com grande antecedência. Nestes casos, onde
há um planejamento do ato agressivo, a hipótese do cérebro frontal não faz
sentido, mais do que isso, o cérebro destes indivíduos parece funcionar
normalmente. Porém vale lembrar que estes psicopatas possuem um cérebro que
consideramos normal já que alterações significativas não foram ainda descritas
mas possivelmente haverá como distinguir um cérebro socialmente normal de um
cérebro com comportamentos psicopatas. Esses comportamentos possivelmente
mostrem relações com alterações dos circuitos neuronais envolvidos com a
recompensa, e mesmo diretamente com o complexo amigdalóide.
Os hormônios sexuais masculinos, a testosterona, pode mostrar forte relação
com esse padrão de comportamento. Indivíduos submetidos a agressões na infância
também mostram alterações na via da recompensa bem como níveis de serotonina
baixos.
Estas considerações interferem na questão: “até que ponto podemos
responsabilizar alguém por seus atos agressivos?”... Talvez as pessoas não optem
por serem violentos mas trazem consigo, cargas genéticas expressivas,
influencias do meio ambiente, exemplos paternos e maternos... muito
provavelmente o comportamento das pessoas não depende apenas delas mas desse
conjunto abstrato de fatores ainda sem repercussão fisiológica identificável.
Circuitos Primários Motivacionais. Complexa rede neuronal envolvendo o córtex
cerebral e o sistema límbico além de áreas específicas como o complexo
amigdalóide, hipocampo, hipotálamo, striatum, tálamo e núcleos específicos do
tronco cerebral e da área septal. A seta amarela aberta mostra a via
cortical-striatal-talâmica-cortical que promovem a inibição ou a estimulação dos
drives motivacionais. O circuito motivacional secundário recebe aferências
afetivas, da memória, sensorial, hormonal e homeostática a qual interfere no
circuito motivacional primário. As substâncias neuroquímicas interferem
diretamente nestas vias exacerbando-as ou inibindo-as.
No esquema acima a figura A mostra as conexões aferentes glutamatérgicas do
córtex pré-frontal em conjunto com as conexões do complexo amigdalóide e do
hipocampo. Informações executivas, afetivas e memória contextual atingem o
núcleo accúmbens. As informações motivacionais relacionadas ao núcleo accúmbens
são GABAérgicas influenciando corticalmente e subcorticalmente nos centros
motores. Figura B mostra as conexões dopaminérgicas para o núcleo accúmbens
alterando o drive motivacional interferindo na transmissão glutamaérgica para o
sistema límbico e para o córtex cerebral. Estes eventos podem estar implicados
na neuroplasticidade do núcleo accúmbens determinando um repertório futuro de
representações motivacionais. Na adolescência o aumento do drive dopaminérgico
causam um estado motivacional adicional.
Algumas regiões dos cérebros dos adolescentes que estão em constante
plasticidade e podem contribuir para um comportamento agressivo, antes da
maturação das vias neuronais.
Núcleo Accúmbens
O núcleo accúmbens esta localizado no final anterior do estriado no interior
do cérebro anterior ventral e rostral. Suas aferências são derivadas das
estruturas límbicas (complexo amigdalóide, hipocampo, núcleo da estria terminal
e área tegmentar ventral), via uma rica projeção dopaminérgica. O núcleo
accúmbens é central para os estados de motivação e comportamentos aditivos. Este
núcleo parece ser uma região principal nos circuitos cerebrais de recompensa
“via da recompensa” associada a alegria, prazer e gratificação. O envolvimento
do núcleo accúmbens com uma alça ganglionar basal límbica específica ajuda a
fornecer a expressão motora de respostas emocionais e gestos com comportamentos
associados.
Ciúme: do comportamento fisiológico ao patológico
A mitologia grega tem belas histórias de amor e ciúmes. Uma delas é o romance
ente o deus Eros e a mortal Psiquê, cuja beleza atraia admiradores e despertou o
ciúme e a fúria de Afrodite, mão e Eros. Para se vingar, ela pediu ao filho que
usasse suas flechas encantadas para fazer com que a bela se apaixonasse pela
criatura mais feia do mundo. Eros partiu para a missão mas não a concretizou já
que se feriu com sua própria flecha e se encantou pela jovem.
Psiquê, filha caçula do rei de Mileto, era a única solteira. Preocupado por
não encontrar um pretendente para a moça, o pai consultou o oráculo de Apolo,
por meio do qual o próprio Eros ordenou que ele a enviasse para o topo de uma
montanha, onde seria desposada por uma serpente. A recomendação foi cumprida e
Psique, abandonada ao sacrifício. Tomada por um sono profundo, despertou num
castelo florido. Lá se entregou ao romance com Eros, que a visitava todas as
noites, sempre no escuro e encapuzado. Inconformadas com a ausência de Psique,
as irmãs resolveram procurá-la. Quando a encontraram em um local tão agradável,
tendo todas as vontades realizadas por um deus misterioso, o ciúme e a inveja
entraram em cena. Influenciada pelas irmãs e a despeito das advertências de
Eros, Psiquê insistiu em descobrir a identidade do amado. Uma noite ela
conseguiu se aproximar enquanto ele dormia. Deslumbrada com a beleza de Eros,
ela deixou cair em seu ombro uma gota de óleo da lâmpada que carregava. Magoado
e furioso, ele a castigou por ter desobedecido a seu pedido e a abandonou,
apesar de todos os apelos desesperados de Psiquê. As últimas palavras do deus:
“O amor não pode conviver com a suspeita”.
É possível entender o ciúme como uma manifestação do ser humano, tão normal
quanto a raiva, o medo ou a inveja. Há, no entanto fatores a serem considerados:
a origem do sentimento, sua intensidade e duração, a maneira como a pessoa que o
sente reage, a importância que assume no cotidiano e interferências que provoca
não apenas na vida do ciumento mas na daqueles que o cercam.
O filósofo francês Roland Barthes escreve: “Como ciumento sofro quatro vezes:
porque me reprovo por sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque
me deixo dominar por uma banalidade; sofro por ser excluído, por ser agressivo,
por ser louco e por ser comum”. O filósofo mostra a contradição e multiplicidade
desse sentimento polimorfo tão presente no cotidiano.
Em diversas situações o indivíduo experimenta descontrole emocional: antigos
fantasmas o assombram, levando-o a confundir situações atuais com traumas
vividos ou imaginados.
Na psicanálise observamos o caso em que Freud descreve como transferência a
situação em que viveu: recém saído da faculdade de medicina, ele conhece o
doutor Breuer que apaixona-se por sua paciente Anna O (Bertha Pappenheim). Anna
O também apaixona-se por Breuer. No entanto, a esposa de Breuer com ciúmes exige
que Breuer pare de atendê-la, indicando o doutor Sigmund Freud, pelo qual a
paciente apaixona-se novamente.
A síndrome de Otelo é descrita como a realização do homicídio pelo marido que
suspeita da traição de sua mulher. Após cometer o assassinato, suicida-se. É
provável que na sociedade em que vivemos as relações tornem-se mais tênues, por
um lado, e mais sujeitas ao rebote do efeito social frustrador, por outro.
Parece que o indivíduo da sociedade moderna transfere sua busca da realização de
anseios de consumo e posse para o relacionamento, concretizando sua raiva e
agressividade.
O ciúme é um sofrimento psíquico que anuncia quando a situação passa a causar
mal-estar intenso, repetindo-se de forma obsessiva (invasão de pensamentos) e
compulsiva (perda do controle sobre suas ações), até comprometer aspectos da
vida pessoal. Em algumas sociedades o ciúme é considerado uma “prova de amor”,
não sendo possível amar alguém sem que junto venha o sentimento do ciúme. Há
pessoas que tentam despertar o interesse do parceiro deixando-o enciumado. No
Brasil há poucos estudos sobre o tema, mostrando a consideração do ciúme como um
comportamento “normal”.
Estudos recentes nos Estados Unidos mostram que os indivíduos ciumentos
possuem fragilidade emocional e extrema insegurança do cônjuge. O perfil do
ciumento, verificado por questionários num estudo recente, mostra que são
pessoas que duvidam da sua própria capacidade de atrair interessados e de
iniciar relacionamentos, tem dificuldades de acreditar que podem manter uma
relação estável. A baixa auto-estima não só o leva a acreditar que pode ser
traído pelo amado como também o faz esperar constantemente por isso. Outro
componente verificado é o tormento da imaginação obscessiva. As pessoas
constroem fantasias paranóides, sentindo-se ameaçada pela perda e pela
humilhação.
É muito difícil para o profissional estabelecer um limite entre o sentimento
fisiológico (normal) e o patológico. A literatura define o ciúme normal como um
sentimento transitório, apresentado em momentos específicos, baseado em fatos
concretos dentro de um contexto envolvendo um relacionamento amoroso. Já as
manifestações patológicas aparecem como preocupações excessivas e infundadas,
não necessariamente num contexto de relação amorosa e caracteriza-se com
sintomas de quadros como transtornos de personalidade, alcoolismo, depressão e
obsessão.
Pessoas com amor patológico também costumam sofrer de ciúmes devido ao
intenso e contínuo medo da perda do parceiro. O amor patológico é predominante
em mulheres e se caracteriza pela excessiva desconfiança e possessividade, mas
seus questionamentos sobre fidelidade são geralmente calçados em motivos mais
plausíveis.
O ciúme patológico também inclui atitudes egoístas, impulsivas e violentas. O
quadro motiva inúmeros casos de homicídios seguido de suicídio – “crimes
passionais”. Os pensamentos do ciumento costumam ser similares aos daqueles com
transtorno obsessivo compulsivo: são intrusivos, desagradáveis e incitam
atitudes de verificação ou busca de reasseguramento.
Neurofisiologia da Emoção. Devido à dificuldade de estudar o ciúme por
relatos dos pacientes, neurocientistas, psicólogos, neurologistas, tentaram
medições fisiológicas para tal sentimento. Buss e colaboradores começaram
medindo a atividade do sistema nervoso autônomo em situações imaginárias de
infidelidade. A freqüência cardíaca e a sudorese de universitários mostraram-se
aumentadas quando imaginavam suas parceiras tendo relações sexuais com outras
pessoas. As mulheres mostraram-se mais perturbadas ao imaginar o parceiro
apaixonado por outra mulher. No entanto, como os indivíduos estavam apenas
imaginando uma traição, os testes não mostraram uma fidelidade científica já que
poderiam apenas estar aferindo as respostas fisiológicas a outros sentimentos
como medo ou ainda outros sentimentos cognitivos-emocionais. Os homens, por
exemplo, exibiam o mesmo padrão de resposta quando imaginavam eles próprios
tendo uma relação sexual com suas namoradas, o mesmo acontecendo com mulheres
sexualmente ativas.
Aphrodite disarming Eros (A. Blocklandt - Prague, Narodni galerie v Praze)
A meditação ativa áreas corticais que modulam a “via da agressividade”, por
esse motivo, a terapia comportamental pode ser indicada àqueles indivíduos com
distúrbios de agressividade, insegurança e ciúme.
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