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NEUROANATOMIA - NERVOS CRANIANOS


Nervos cranianos são os que fazem conexão com o encéfalo. A maioria deles liga-se ao tronco encefálico, excetuando-se apenas os nervos olfatório e ópticos que se ligam, respectivamente, ao telencéfalo e ao diencéfalo. Os nomes dos pares cranianos, numerados em seqüência crânio-caudal, aparecem adiante, onde também são mostradas as origens aparentes no encéfalo e no crânio, dos doze pares cranianos. Alguns autores consideram treze os pares cranianos, considerando-se o nervo terminal, pouco desenvolvido no homem e de função controvertida. Alguns consideram este nervo terminal associado ao nervo olfatório, resultando numa contagem final de doze pares. Os nervos III, IV e VI inervam músculos dos olhos músculos dos olhos. O V par, nervo trigêmio, é assim denominado em virtude de seus três ramos: nervo oftálmico (V1), maxilar (V2) e mandibular (V3). O VII, nervo facial, compreende o nervo facial propriamente dito e o nervo intermédio, considerado por alguns como a raiz sensitiva e visceral do nervo facial. O VIII par, nervo vestíbulo-coclear, apresenta dois componentes distintos que são por alguns considerados como nervos separados. São eles os nervos vestibular e coclear, relacionados, respectivamente, com o equilíbrio e a audição. Devido a isto, o nervo vestíbulo-coclear é também chamado de nervo estatoacústico. O antigo nome nervo auditivo, quando usado em relação a todo o nervo é impróprio, pois acentua apenas um dos componentes do VIII par. O nervo acessório difere dos demais pares cranianos por ser formado por uma raiz craniana (ou bulbar) e outra espinhal. Os nervos cranianos são muito mais complicados que os espinhais no que se refere às origens aparentes. Enquanto os nervos espinhais as origens são sempre as mesmas, variando apenas o nível em que a conexão é feita com a medula ou com o esqueleto, nos nervos cranianos as origens aparentes são diferentes para cada nervo.

Origem aparente dos pares cranianos

Par craniano Origem aparente no encéfalo Origem aparente no crânio
I - Olfatório Bulbo olfatório Lâmina crivosa do osso etmóide
II - Óptico Quiasma óptico Canal óptico
III - Óculomotor Sulco medial do pedúnculo cerebral Fissura orbital superior
IV - Troclear Véu medular superior Fissura orbital superior
V - Trigêmio Entre a ponte e o pedúnculo cerebelar médio Fissura orbital superior (oftálmico); forame redondo (maxilar) e forame oval (mandibular)
VI - Abducente Sulco bulbo-pontino Fissura orbital superior
VII - Facial Sulco bulbo-pontino (lateralmente ao VI) Forame estilomastóideo
VIII - Vestíbulo-Coclear Sulco bulbo-pontino (lateralmente ao VII) Penetra no osso temporal pelo meato acústico interno mas não sai do crânio
IX - Glossofaríngeo Sulco lateral posterior do bulbo Forame jugular
X - Vago Sulco lateral posterior caudalmente ao IX Forame jugular
XI - Acessório Sulco lateral posterior do bulbo (raiz craniana) e medula (raiz espinhal) Forame jugular
XII - Hipoglosso Sulco lateral anterior do bulbo, adiante da oliva Canal hipoglosso


Componentes funcionais dos nervos cranianos




Componentes Aferentes


Na extremidade cefálica dos animais desenvolveram-se durante a evolução órgãos de sentido mais complexos que são, nos mamíferos, os órgãos da visão, audição, gustação e olfação. Os receptores destes órgãos são denominados "especiais" para distinguí-los dos demais receptores que, por serem encontrados em todo o resto do corpo, são denominados gerais. As fibras nervosas em relação com estes receptores são classificadas como especiais:

a) Fibras aferentes somáticas gerais - originam-se em exteroceptores e proprioceptores, conduzindo impulsos de temperatura, dor, pressão, tato e propriocepção;

b) Fibras aferentes somáticas especiais - originam-se na retina e no ouvido interno relacionando-se com visão, audição e equilíbrio;

c) Fibras aferentes viscerais visuais gerais - originam-se em visceroceptores e conduzem, por exemplo, impulsos relacionados com a dor visceral;

d) Fibras aferentes viscerais especiais - originam-se em receptores gustativos e olfatórios, que são considerados viscerais por estarem localizados em sistemas viscerais como os sistemas digestório e respiratório.

Componentes Eferentes


As fibras eferentes viscerais gerais pertencem à divisão parassimpática do sistema nervoso autônomo e terminam em gânglios viscerais de onde os impulsos são levados às diversas estruturas viscerais. Elas são fibras pré-ganglionares e promovem a inervação pré-ganglionar destas estruturas. As fibras que enervam músculos estriados miotômicos são denominadas fibras eferentes somáticas. Esta classificação encontra apoio na localização dos núcleos dos nervos cranianos motores, situados no tronco encefálico.



A propósito da inervação da musculatura branquiomérica é interessante lembrar que, muito cedo no desenvolvimento, cada arco branquial recebe um nervo craniano que inerva a musculatura que ai se forma.

Nervo Musculatura Arco branquial
V par Musculatura mastigadora; ventre anterior do músculo digástrico
VII par Musculatura mímica; ventre posterior do músculo digástrico e músculo estilohióideo
IX par Músculo estilo-faríngeo e constrictor superior da faringe
X par Músculos constrictores médio e inferior da faringe; músculo da laringe 4º e 5º


Os músculos esternocleidomastóideo e trapézio são, ao menos em parte, de origem branquiomérica, sendo inervados pela raiz espinhal do nervo acessório.

Estudo dos Pares Cranianos


1) Nervo Olfatório - I par

É representado por numerosos pequenos feixes nervosos que, originando-se na região olfatória de cada fossa nasal, atravessam a lâmina cribiforme do osso etmóide e terminam no bulbo olfatório. É um nervo exclusivamente sensitivo, cujas fibras conduzem impulsos olfatórios, sendo, classificados como aferentes viscerais especiais.

2) Nervo Óptico - II par

É constituído por um grosso feixe de fibras nervosas que se originam na retina, emergem próximo ao pólo posterior de cada bulbo ocular, penetrando no crânio pelo canal óptico. Cada nervo óptico une-se com do lado oposto, formando o quiasma óptico, onde há cruzamento parcial de suas fibras as quais se continuam no tracto óptico até o corpo geniculado lateral. O nervo óptico é um nervo exclusivamente sensitivo, cujas fibras conduzem impulsos visuais classificando-se como aferentes somáticas especiais. Um reflexo comum observado é denominado reflexo corneano onde a luz alcança a córnea ou a conjuntiva provocando um piscar palpebral. Outro reflexo encontrado é denominado reflexo corporal visual onde há uma busca dos olhos em movimentos automáticos, isto é, quando lemos os olhos buscam a seqüência correta das frases a todo momento, sendo portanto um ato reflexo (neste reflexo observamos também alterações posturais envolvendo a elevação do braço para proteção dos olhos). O reflexo cutâneo pupilar constitui-se na dilatação pupilar quando a pele é estimulada com dor (estímulo nociceptivo).

3) Nervos Óculomotor (III par); Troclear (IV par) e Abducente (VI par)

São nervos motores que penetram na órbita pela fissura orbital superior, distribuindo-se aos músculos extrínsecos do bulbo ocular, que são os seguintes: elevador da pálpebra superior, reto superior, reto inferior, reto medial, reto lateral, oblíquo superior e oblíquo inferior. Todos estes músculos são inervados pelo óculomotor, com exceção do reto lateral e do oblíquo superior inervados, respectivamente, pelos nervos abducente e troclear. As fibras nervosas que os inervam são classificadas como eferentes somáticas. Além disso, o nervo óculomotor possui fibras responsáveis pela inervação pré-ganglionar dos músculos intrínsecos do bulbo ocular: o músculo ciliar, regula a convergência do cristalino, e o músculo esfíncter da pupila. Estes músculos são lisos as fibras que os inervam classificam-se como eferentes viscerais gerais.

4) Nervo Trigêmio, V par

O nervo trigêmio é um nervo misto, sendo o componente sensitivo consideravelmente maior. Possui uma raiz sensitiva e uma raiz motora. A raiz sensitiva é formada pelos prolongamentos centrais dos neurônios sensitivos, situados no gânglio trigeminal (ou semilunar, ou gânglio de Gasser), que se localiza no cavo trigeminal, sobre a parte petrosa do osso temporal. Os prolongamentos periféricos dos neurônios sensitivos do gânglio trigeminal formam distalmente ao gânglio os três ramos ou divisões do trigêmio, nervo oftálmico (V1), nervo maxilar (V2) e nervo mandibular (V3), responsáveis pela sensibilidade somática geral de grande parte da cabeça, através de fibras que se classificam como aferentes somáticas gerais. Estas fibras conduzem impulsos exteroceptivos e proprioceptivos. Os impulsos exteroceptivos (temperatura, dor, pressão e tato) originam-se:

a) da pele da face e da fronte;

b) da conjuntiva ocular;

c) da parte ectodérmica da mucosa da cavidade bucal, nariz e seios paranasais;

d) dos dentes;

e) dos 2/3 anteriores da língua;

f) da maior parte da dura-máter craniana.

Os impulsos proprioceptivos originam-se em receptores localizados nos músculos mastigadores e na articulação têmporo-mandibular.

A raiz motora do trigêmio é constituída de fibras que acompanham o nervo mandibular, distribuindo-se aos músculos da mastigação (temporal, masseter, pterigóideo medial), milo-hióideo e para o ventre anterior do músculo digástrico.

5) Nervo Facial, VII par

O nervo facial emerge do sulco bulbo-pontino através de uma raiz motora, o nervo facial propriamente dito, e uma raiz sensitiva e visceral, o nervo intermédio (de Wrisberg). Juntamente com o nervo vestíbulo-coclear, os dois componentes do nervo facial penetram no meato acústico interno, no interior do qual o nervo intermédio perde a sua individualidade formando-se, assim, um tronco nervoso único que penetra no canal facial. Depois de curto trajeto o nervo facial encurva-se fortemente para trás, formando o joelho externo ou genículo do nervo facial, onde existe um gânglio sensitivo, o gânglio geniculado. A seguir o nervo descreve nova curva para baixo, emerge do crânio pelo forame estilo-mastóideo, atravessa a glândula parótida e distribuem uma série de ramos para os músculos mímicos, músculo estilo-hióideo e ventre posterior do músculo digástrico. Estes músculos derivam do segundo arco branquial e as fibras a eles destinadas são eferentes viscerais especiais, constituindo o componente funcional mais importante do VII par. Os quatro outros componentes funcionais do VII par pertencem ao nervo intermédio, que possui fibras aferentes viscerais especiais, aferentes viscerais gerais, aferentes somáticas gerais e eferentes viscerais gerais. As fibras aferentes são prolongamentos periféricos de neurônios sensitivos situados no gânglio geniculado; os componentes eferentes originam-se em núcleos do tronco encefálico. Todos estes componentes são sintetizados a seguir:

Componentes funcionais das fibras dos Nervos Facial (VII); Glossofaríngeo (IX) e Vago (X)

Componente Funcional VII IX X
Aferente visceral especial Gustação nos 2/3 anteriores da língua Gustação no 1/3 posterior da língua Gustação na epiglote
Aferente visceral geral Parte posterior das fossas nasais e face superior do palato mole 1/3 posterior da língua, faringe, úvula, tonsilas, tuba auditiva, seio e corpos carotídeos Parte da faringe, laringe, traquéia, esôfago e vísceras, torácicas e abdominais
Aferente somático geral Parte do pavilhão auditivo e do meato acústico externo Parte do pavilhão auditivo e do meato acústico externo Parte do pavilhão auditivo e do meato acústico externo
Eferente visceral geral Glândula submandibular, sublingual e lacrimal Glândula parótida Vísceras torácicas e abdominais
Eferente visceral especial Musculatura mímica Músculo constrictor superior da faringe e músculo estilofaríngeo Músculos da faringe e da laringe


6) Nervo Vestíbulo-Coclear, VIII par

O nervo vestíbulo-coclear é um nervo exclusivamente sensitivo, que penetra na ponte na porção lateral do sulco bulbo-pontino, entre a emergência do VII par e o flóculo do cerebelo, região denominada ângulo ponto-cerebelar. Ocupa juntamente com os nervos facial e intermédio o meato acústico interno, na porção petrosa do osso temporal. Compõem-se de uma parte vestibular e uma parte coclear, que embora unidas em tronco comum, têm origem, funções e conexões centrais diferentes.

A parte vestibular é formada por fibras que se originam dos neurônios sensitivos do gânglio vestibular, que conduzem impulsos nervosos relacionados com o equilíbrio, originados em receptores da porção vestibular do ouvido interno.

A parte coclear do VIII par é constituída de fibras que se originam nos neurônios sensitivos do gânglio espiral e que conduzem impulsos nervosos relacionados com a audição originados no órgão espiral (de Corti), receptor da audição, situado na cóclea. As fibras do nervo vestíbulo-coclear classificam-se como aferentes somáticas especiais.

7) Nervo Glossofaríngeo, IX par

O nervo glossofaríngeo é um nervo misto que emerge do sulco lateral posterior do bulbo, sob a forma de filamentos radiculares que se dispõem em linha vertical. Estes filamentos unem-se para formar o tronco do nervo glossofaríngeo , que sai do crânio pelo forame jugular. No seu trajeto, através do forame jugular, o nervo apresenta dois gânglios, superior (jugular) e inferior (petroso), formados por neurônios sensitivos. Ao sair do crânio, o nervo glossofaríngeo tem trajeto descendente, ramificando-se na raiz da língua e na faringe. Os componentes funcionais das fibras do nervo glossofaríngeo assemelham-se aos do vago e do facial.

As fibras eferentes do glossofaríngeo originam-se em neurônios situados em núcleos do tronco encefálico, enquanto as fibras aferentes têm seus neurônios nos gânglios inferior (fibras viscerais) e superior (fibras somáticas). Entre as fibras aferentes viscerais do nervo glossofaríngeo merecem atenção as que inervam o seio e o corpo carotídeo e que constituem um nervo independente, o ramo do seio carotídeo. Estas fibras conduzem impulsos que informam continuamente o sistema nervoso central sobre as variações de pressão arterial e do teor de oxigênio do sangue.

8) Nervo Vago, X par

O nervo vago, o maior dos nervos cranianos é misto e essencialmente visceral. Emerge do sulco lateral posterior do bulbo sob a forma de filamentos radiculares que se reúnem para formar o nervo vago. Este emerge do crânio pelo forame jugular, percorre o pescoço e o tórax, terminando no abdome. Neste longo trajeto o nervo vago dá origem a numerosos ramos que enervam a laringe e a faringe, entrando na formação dos plexos viscerais que promovem a inervação autônoma das vísceras torácicas e abdominais. O vago possui dois gânglios sensitivos, o gânglio superior (jugular) situado ao nível do forame jugular e o gânglio inferior (nodoso), situado logo abaixo deste forame.

As fibras eferentes do vago originam-se em núcleos situados no bulbo e as fibras sensitivas nos gânglios superior (fibras somáticas) e inferior (fibras viscerais).

9) Nervo Acessório, XI par

O nervo acessório é formado por uma raiz craniana (bulbar) e uma raiz espinhal. A raiz espinhal é formada por filamentos radiculares que emergem da face lateral dos 5 ou 6 primeiros segmentos cervicais da medula, formam um tronco comum que penetra no crânio pelo forame magno. A este tronco unem-se os filamentos da raiz craniana que emerge do sulco lateral posterior do bulbo. O tronco comum atravessa o forame jugular em companhia dos nervos glossofaríngeo e vago dividindo-se em um ramo interno e outro externo. O ramo interno, que contém as fibras da raiz craniana, unem-se ao vago e distribuem-se com ele. O ramo externo, contém as fibras da raiz espinhal, tem trajeto próprio e dirigem-se obliquamente para baixo, inervando os músculos trapézio e esternocleidomastóideo. As fibras oriundas da raiz craniana que se unem ao vago funcionalmente são de dois tipos:

a) fibras eferentes viscerais especiais - inervam os músculos da laringe através do nervo laríngeo recorrente.

b) Fibras eferentes viscerais gerais - inervam vísceras torácicas juntamente com as fibras vagais.

10) Nervo Hipoglosso, XII par

O nervo hipoglosso, essencialmente motor, emerge do sulco lateral anterior do bulbo sob a forma de filamentos radiculares que se unem para formar o tronco do nervo. Este emerge do crânio pelo canal hipoglosso, tem trajeto inicialmente descendente dirigindo-se, a seguir, para adiante, distribuindo-se aos músculos intrínsecos e extrínsecos da língua. Assim as fibras do hipoglosso são consideradas eferentes somáticas, o que, esta de acordo com a posição de seu núcleo no tronco encefálico.

A propósito da inervação da língua, convém recordar que ela é feita por quatro nervos cranianos. Verifica-se que o único nervo motor da língua é o hipoglosso e que a inervação sensitiva é feita pelos seguintes pares cranianos:

a) Trigêmio - sensibilidade geral (dor e temperatura) nos 2/3 anteriores;

b) Facial - sensibilidade gustativa nos 2/3 anteriores;

c) Glossofaríngeo - sensibilidade geral e gustativa no 1/3 posterior.

Entretanto, como as fibras do facial chegam à língua através do nervo lingual, apenas três nervos estabelecem contato direto com a língua, ou seja, o hipoglosso, o glossofaríngeo e o nervo lingual, ramo da divisão mandibular (V3) do trigêmio.

Considerações Clínicas

Os 12 pares de nervos cranianos não possuem suas células nucleares dispostas de maneira simples como observamos na medula. Seus núcleos são encontrados em diferentes regiões do tronco encefálico. Estes núcleos recebem eferências de diversas estruturas como: cerebelo, núcleo rubro, formação reticular, corpo estriado e da medula, desempenhando importante função no movimento ocular, por exemplo.

Consideramos: conexões córtico-nucleares bilaterais estão presentes para todos os núcleos motores dos nervos cranianos, exceto para a parte do núcleo do facial. Os nervos cranianos que possuem fibras sensoriais aferentes têm corpos celulares presentes em gânglios. Nos processos de compressão nervosa, é incomum que apenas um par de nervo craniano seja acometido, isso devido a proximidade dos núcleos nervosos.

Exame Clínico dos Nervos Cranianos

Constitui-se numa parte fundamental no exame clínico neurológico. O exame bem feito nos dá a idéia se uma lesão é periférica ou central.

a) Nervo Olfatório - NC I: observe se as vias aéreas estão limpas; aplica-se alguma substância aromática facilmente reconhecida (menta, tabaco) - questiona-se o paciente quanto à sua percepção. Devemos lembrar que o sabor dos alimentos depende do olfato e não do paladar. Quando não há percepção da substância em questão, denominamos anosmia bilateral, causada por doença da mucosa olfatória como resfriado, por exemplo. Já a anosmia unilateral pode resultar numa situação que acomete o nervo olfatório: devemos pensar em fraturas da fossa anterior, tumores cerebrais de lobo frontal, meningiomas, etc.

b) Nervo Óptico - NC II: a anamnese é fundamental para a detecção do problema - questiona-se ao paciente alguma alteração recente da visão. A acuidade visual deverá ser testada para perto e para longe: a visão de perto é testada pedindo ao paciente que leia um cartão com letras de tamanhos diferentes. Cada olho é testado alternadamente. A visão de longe é aferida pelo teste de Snellen onde a uma distância de 6 metros o paciente é questionado sobre a letra mostrada. Em seguida testamos os campos visuais: o paciente fica sentado em frente ao médico há uma distância de 60cm - pede-se ao paciente que cubra o olho direito e o clínico cobre o seu olho esquerdo. Em seguida, pede-se que o paciente olhe para a pupila do médico: um objeto pequeno é movido em arco em torno da periferia do campo da visão, pedindo-se ao paciente que diga quando identificar o objeto. Repete-se o procedimento para o outro olho do paciente.

As lesões da via visual são freqüentemente causadas por tumores hipofisários (já que o quiasma óptico situa-se intimamente superior à glândula hipofisária), AVC, tumores expansivos como meningiomas, dentre outras causas tais como neurite óptica decorrente à invasão da infecção dos seios esfenoidais e etmoidais para o canal óptico.

Exame de fundo de olho: utiliza-se um equipamento denominado oftalmoscópio. O paciente olha para um objeto distante, fixamente; observamos através da pupila do paciente o disco óptico e, em seguida, a retina. Os vasos sangüíneos (4 vasos principais - artérias com suas respectivas veias) são avaliados quanto à sua turgidez isto é, as veias não deverão estar comprimidas pelas artérias. Por fim a mácula deverá ser observada (o paciente olha diretamente para a luz do oftalmoscópio deixando-a mais escura do que o resto da retina). O disco óptico possui coloração rósea, com visão clara da sua borda (limites) - o centro do disco mostra-se mais claro. A retina é vermelha, não devendo apresentar hemorragias ou exsudatos.



Exame dos músculos extra-oculares: a cabeça do paciente é mantida fixa movimentando seus olhos para esquerda, direita, para cima e para baixo.

c) Nervo Óculomotor - NC III: o terceiro par inerva todos os músculos extra-oculares exceto os músculos oblíquo superior e reto lateral. Inerva o músculo levantador da pálpebra superior e o músculo liso relacionado ao reflexo de acomodação (músculo esfíncter pupilar e músculo ciliar). Nas lesões do nervo óculomotor o olho perde sua capacidade de movimentar-se para cima, para dentro (nasal) e para baixo. No repouso há estrabismo externo (olhos miram para lateral), há diplopia associada a ptose palpebral, midríase não respondente à luz. Lesões parciais do III NC podem estar presentes e poupando os músculos extra-oculares e intra-oculares (músculo esfíncter pupilar e músculo ciliar): denominamos oftalmoplegia interna quando os músculos intra-oculares são acometidos mas os extra-oculares não; e oftalmoplegia externa quando o inverso acontece. A explicação para o comprometimento dos nervos autônomos é a de que os nervos parassimpáticos situam-se superficialmente ao nervo óculomotor, sendo os primeiros a serem comprimidos nos processos neoplásicos compressivos, por exemplo.

d) Nervo Troclear - NC IV: o nervo troclear inerva o músculo oblíquo superior que produz a rotação do globo ocular para baixo e para fora (lateralmente). Nas lesões (como em aneurismas de artéria carótida interna, trombose de seio cavernoso dentre outras) os pacientes queixam-se de diplopia quando olham para baixo.

e) Nervo Abducente - NC VI: inerva o músculo reto lateral movendo o olho lateralmente. Nas lesões (como traumatismos cranioencefálicos, aneurismas, tromboses), o paciente não move o olho para lateral - observa-se estrabismo interno (já comentado). A diplopia pode estar presente. Nas oftalmoplegias internucleares há lesão do fascículo longitudinal medial com desconexão do núcleo óculomotor do núcleo abducente: quando o paciente é instruído para olhar lateralmente o músculo reto lateral ipsilateral contrai movendo o olho lateralmente mas o músculo reto medial contralateral deixa de contrair, e o olho fica dirigido diretamente para frente. A oftalmoplegia bilateral pode ocorrer em escleroses múltiplas, AVCI, traumatismos ou nos tumores de tronco encefálico.

f) Nervo Trigêmio - NC V: a porção sensorial do trigêmio pode ser testada utilizando-se um pedaço de algodão ou um alfinete aplicados em toda a área inervada pelas porções V1, V2 e V3 do nervo. Nas lesões de V1 a córnea e a conjuntiva ficam insensíveis ao toque. A função motora é testada pedindo ao paciente que trinque os dentes: os músculos masseter e temporal devem ser palpados notando sua contração. Na neuralgia do trigêmio há uma dor intensa na face, sem causa definida. A dor é sentida mais freqüentemente nas regiões inervadas por V2 e V3.

g) Nervo Facial - NC VII: pede-se para que o paciente mostre os dentes, com a separação dos lábios mantendo os dentes trincados. Não havendo lesão, os dois lados serão simétricos, isto é, observaremos os dentes bilateralmente em simetria. No caso de lesão do nervo facial, observaremos uma maior área de dentes do lado intacto. Outro teste utilizado é pedir ao paciente que feche os olhos com firmeza: o clínico deverá tentar abrir seus olhos pela elevação delicada das pálpebras superiores - nos casos de lesões do nervo facial a pálpebra do lado lesionado não apresentará resistência à tentativa do médico em abri-la. Para localizarmos a topografia de uma lesão do nervo facial devemos considerar: caso o nervo abducente esteja comprometido como também o facial, é sugestivo de uma lesão na ponte. Caso o nervo vestíbulo-coclear e o facial não estiverem funcionando devemos pensar em lesão no meato acústico interno.

Perda do paladar nos 2/3 anteriores da língua indica que o facial esta lesionado próximo ao ponto onde têm origem o nervo corda do tímpano (canal facial). Alterações na secreção da glândula parótida associado a lesão do facial é sugestivo de câncer da glândula parótida. Lesões no neurônio motor superior será diagnosticada se, somente se, estiver presente paralisia dos músculos inferiores da face, isso porque ambos os hemisférios enviam fibras córtico-nucleares para estes músculos. Logo, se o neurônio motor superior esquerdo estiver lesionado, por exemplo, os neurônios do lado direito realizaram o movimento contralateral da musculatura superior da face. As lesões do neurônio motor inferior cursam de modo diferente das lesões superiores causando paralisias tanto dos músculos superiores da face como dos inferiores. Na paralisia de Bell há uma disfunção do nervo facial em seu curso pelo canal facial - o inchaço do nervo no interior do canal provocará compressão - podendo ser ocasionada por exposição ao ar frio. A paralisia de Bell é considerada uma lesão no neurônio motor inferior cursando com paralisia da musculatura superior e inferior da face.

h) Nervo Vestíbulo-Coclear - NC VIII: os distúrbios que acometem o nervo vestibular cursam com vertigens e nistagmo. O nistagmo vestibular é uma oscilação rítmica, incontrolável dos olhos, com a fase rápida na direção oposta à lesão. A função vestibular pode ainda ser testada através dos testes de calor produzidos pelo médico no meato acústico externo do paciente. A vertigem é causada pelas doenças do labirinto onde podemos citar a doença de Meniére. Já os distúrbios que acometem o nervo coclear se manifestam com surdez e tinito. O teste do diapasão deverá ser realizado para avaliação dos dois ouvidos. As doenças que cursam com surdez podem ser originadas de lesões no ouvido médio (órgão espiral de Corti) ou ainda, no ouvido interno: doença de Menière, labirintite aguda e trauma cranioencefálico. As lesões no próprio nervo coclear incluem tumores e traumatismos.

i) Nervo Glossofaríngeo - NC IX: envolvido na secreção parotídea, sensibilidade no terço posterior da língua além do músculo estilofaríngeo. Lesões isoladas deste nervo são raras, estando também acometido, o nervo vago. O teste deste nervo inclui a sensibilidade geral e gustativa no terço posterior da língua.

j) Nervo Vago - NC X: o teste para o nervo vago deve feito pela avaliação dos ramos vagais para faringe, palato mole e laringe. O médico deve tocar a parede lateral da laringe, com uma espátula, observando o reflexo faríngeo (engasgo). Lesões neste ramo do nervo vago causará discreto ou nenhum "engasgo". O ramo para o palato mole deverá ser testado pedindo ao paciente que diga "ahhh": o palato deverá se elevar e a úvula deslocada para trás. Nas lesões isso não ocorrerá. Por fim, o vago é testado pela observação de rouquidão e ou perda de voz como sintomas de paralisia do nervo vago. Pelo exame laringoscópico podemos testar o movimento das cordas vocais. É comum em processos que acometam a fossa craniana posterior, o acometimento dos nervos vago, glossofaríngeos, acessório e hipoglosso.

k) Nervo Acessório - NC XI: inerva os músculos esternocleidomastóideo e trapézio. Testamos este nervo pedindo ao paciente que vire a cabeça contra uma resistência (a mão do médico) e logo após mexa os ombros (testando o trapézio). Lesões do nervo acessório cursam com perda de força na virada da cabeça como também com queda do ombro ipsilateral à lesão. As lesões poderão ser causadas por FAF, FAB, traumas e tumores.

l) Nervo Hipoglosso - NC XII: o paciente deverá colocar a língua para fora - nas lesões do neurônio motor inferior a língua será deslocada para o lado da lesão (paralisado), a língua também estará atrofiada (menor) do lado lesionado. Devemos considerar que o núcleo do hipoglosso recebe fibras dos dois hemisférios cerebrais mas o músculo genioglosso (responsável pelo movimento da língua para fora da boca) só recebe fibras córtico-nucleares de um único hemisfério, logo, lesões das fibras córtico-nucleares não ocasionaram atrofia e a língua desviar-se-á para o lado oposto à lesão. As lesões neste nervo podem decorrer de traumas, FAF, FAB, doenças desmielinizantes, tumores e AVC.

• Neuroanatomia - Nervos Cranianos - (Imagens - Parte I)

• Neuroanatomia - Nervos Cranianos - (Imagens - Parte II)

• Neuroanatomia - Nervos Cranianos - (Imagens - Parte III)

• Neuroanatomia - Nervos Cranianos - (Imagens - Parte IV)

• Neuroanatomia - Nervos Cranianos - (Imagens - Parte V)

• Neuroanatomia - Nervos Cranianos - (Imagens - Parte VI)

• Neuroanatomia - Nervos Cranianos - (Imagens - Parte VII)

• Neuroanatomia - Nervos Cranianos - (Imagens - Parte VIII)

• Neuroanatomia - Nervos Cranianos - (Imagens - Parte IX)