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NEUROANATOMIA - CÓRTEX CEREBRAL E VIAS AFERENTES


Neuroanatomia - Funcional do Córtex Cerebral


O córtex cerebral possui inúmeras circunvoluções o que aumenta sua área superficial significativamente. Há 5 tipos celulares presentes no córtex cerebral: as células piramidais, muitas vezes denominadas células gigantes de Betz (encontradas no giro pré-central motor do lobo frontal); as células estrelares, às vezes denominadas células granulares; as células fusiformes presentes em camadas corticais mais profundas; as células horizontais de Cajal e as células de Martinotti (pequenas células multipolares).

O córtex cerebral possui uma espessura que varia de 1,5-4,5mm de espessura, sendo mais delgado na base dos giros e mais espesso no ápice dos giros. O córtex cerebral é dividido em 6 camadas celulares - Neocórtex:

1. Camada Molecular (plexiforme): camada mais superficial, possuem extensa malha de fibras nervosas, dendritos das células piramidais e fusiformes. Também é constituída por axônios das células estrelares e de Martinotti.

2. Camada Granular Externa;

3. Camada Molecular Externa (Piramidal Externa): possuem fibras de projeção, de associação ou comissurais;

4. Camada Granular Interna: possuem fibras horizontais denominadas faixa de Baillarger;

5. Camada Ganglionar (Piramidal Interna);

6. Camada Multiforme.

Não são todas as áreas do córtex cerebral que possuem 6 camadas: as áreas onde estas 6 camadas não podem ser identificadas são denominadas córtex heterotípico, diferenciando-se das regiões corticais com seis camadas, homotípicas. O neocórtex constitui-se no isocórtex sendo dividido em homotípico ou heterotípico, como mencionado. O córtex heterotípico pode ser granular ou agranular. Já o paleocórtex e o arquicórtex são conjuntamente denominados alocórtex. O paleocórtex é o conjunto cortical com apenas 3 camadas celulares: úncus e giro para-hipocampal enquanto que, com apenas 1 camada celular, o arquicórtex é composto pelo hipocampo (local freqüente de convulsões).

O córtex ainda divide-se em granular (camadas granulares muito bem desenvolvidas) sendo as camadas 2 e 4 suas representantes. Já as camadas 3 e 5 não possuem células granulares bem desenvolvidas. No córtex agranular as camadas 2 e 4 são pouco desenvolvidas enquanto as camadas 3 e 5 são bem desenvolvidas (giro pré-central). Podemos então concluir que as camadas 2 e 4 são células receptoras (córtex sensitivo = giro pós-central - Isocórtex heterotípico granular) e as camadas 3 e 5 são constituídas por células motoras (córtex motor = giro pré-central - Isocórtex heterotípico agranular).

Áreas Corticais Funcionais. Brodman descreve áreas funcionais importantes no entanto nos levam ao erro se acreditarmos precisamente em suas divisões. Estudos atuais com fRNM, PET e SPECT mostram que a complexidade das regiões corticais é bem maior do que se acreditava. No entanto, para efeito didático vamos considerá-la destacando pontos funcionais corticais importantes:

1. Lobo Frontal: área pré-central (giro pré-central estendendo-se para ambos os lóbulos paracentrais). Nessa região originam-se fibras das vias córtico-espinhais e córtico-bulbares. Logo trata-se de uma região motora. A área pré-central pode ser dividida em área motora primária (anterior) - área de Broadman 4 e, secundária (posterior) - área de Broadman 6 e porções da área 8, 44 e 45. Nestas áreas a representação corporal é determinada pelo humúnculo motor ou humúnculo motor de Penfield. A função da área motora primária é a execução de movimentos individuais das diferentes partes do corpo. Recebem numerosas fibras aferentes da área pré-motora, do córtex sensorial, do tálamo, do cerebelo e dos núcleos da base. A área pré-motora recebe inúmeras aferencias, armazenando os programas para atividades motoras, utilizando-se de experiências passadas. A área motora suplementar, situada no giro frontal médio, é responsável pelo movimento dos membros na porção contralateral do corpo. O campo ocular frontal, áreas de Broadman 6,8 e 9, promove movimento conjugado dos olhos, preferencialmente na porção contralateral do hemicorpo. A área motora da fala ou área de Broca corresponde ao giro frontal inferior (área de Broadman 44 e 45), sendo essencial para o hemisfério dominante na motricidade da fala. A ablação desta área no hemisfério não dominante não altera a fala. O córtex pré-frontal, por fim, anteriormente à área pré-central (áreas de Broadman 9, 10, 11 e 12) é responsável por conexões aferentes e eferentes com o tálamo, córtex cerebral, hipotálamo e corpo estriado. Esta região pré-frontal esta relacionada à estruturação da personalidade da pessoa: agressividade, comportamento, sentimentos, respostas, cálculos.

2. Lobo Parietal: área somestésica primária (área somatossensorial primária) situada no giro pós-central (áreas de Broadman 3,1 e 2). Estas áreas possuem aferências dos núcleos talâmicos, sendo representado pelo humúnculo sensitivo de Penfield (semelhante ao humúnculo motor). A área somestésica secundária fica no lábio superior do ramo posterior da fissura de Sylvius, sua função é incerta. A área de associação somestésica ocupa o lobo parietal superior (áreas 5 e 7 de Broadman). Essas áreas recebem aferência de muitas regiões cerebrais integrando diferentes informações sensoriais. Essa área associativa permite que identifiquemos um objeto apenas com o toque, não necessitando da visão.

3. Lobo Occipital: área visual primária (área 17de Broadman) recebe aferências do corpo geniculado lateral do tálamo. O córtex visual primário recebe informações da metade temporal ipsilateral e da metade nasal contralateral. A área visual secundária (área 18 e 19 de Broadman) circunda a área primária, sua função é receber fibras da área 17, de outras áreas corticais e áreas talâmicas. Essa região secundária relaciona a informação visual recebida às experiências passadas, permitindo o reconhecimento. O campo ocular visual pode situar-se nessa área visual secundária.

4. Lobo Temporal: área auditiva primária (áreas 41 e 42 de Broadman) inclui o giro temporal transverso. As fibras que terminam nestas áreas originam-se no corpo geniculado medial do tálamo formando a radiação auditiva da cápsula interna. A área auditiva secundária fica no sulco lateral e giro temporal superior (área 22 de Broadman) integrando e interpretando sons. Área de Wernicke (área sensorial da fala), classificada como área 39 e 40 de Broadman. A área de Wernicke esta integrada a área de Broca pelo fascículo arqueado. Esta área muitas vezes é denominada área de associação parieto-occipito-temporal por incorporar e integrar estes três lobos corticais. A área de Wernicke associa as eferências auditivas, visuais e sensoriais somáticas. A área de Wernicke permite a compreensão da linguagem escrita e falada sendo responsável pela compreensão.

Outras Áreas de Relevância Cortical


Área Gustativa: situada na extremidade inferior do giro pós-central e na porção superior do sulco lateral (Sylvius) - área 43 de Broadman.

Área Vestibular: especula-se que esta área situa-se na porção do giro pós-central relacionado à sensibilidade da face. Esta área é responsável pelo posicionamento da cabeça no espaço e da postura.

Área da Insula: especula-se que esta região seja responsável pelo pplanejamento ou coordenação dos movimentos relacionados à fala. Novas descobertas mostram sua importância quando pensamos em nós mesmos, "o circuito do eu".

Vias Eferentes


As vias eferentes constituem-se na conexão entre o sistema nervoso central e sua periferia. São por elas que desencadeamos uma série de reações, respostas, aos estímulos que chegam ao sistema nervoso. Podemos destacar, didaticamente, duas "classes" de vias neurais que eferem do nosso sistema nervoso: as vias piramidais e as vias extrapiramidais. No entanto, trata-se apenas de uma divisão didática já que funcionalmente estas vias são interligadas, isto é, uma via dita extrapiramidal pode interferir na via piramidal.

Trato Piramidal. A via piramidal é formada por duas outras vias: a via córtico-espinhal e a via córtico-nuclear, ambas decussam na pirâmide bulbar. A via córtico-espinhal interliga o córtex motor ao corno anterior da medula espinhal isto é, a área de Broadman 4 (giro pré-central) ao neurônio motor anterior. A área de Broadman 4 envia fibras que via corona radiada atravessam a cápsula interna chegando ao mesencéfalo. Do mesencéfalo 75-90% das fibras nervosas sofrem decussação bulbar formando então o tracto córtico-espinhal lateral. Outros 10% de fibras nervosas, não sofrem essa decussação na pirâmide bulbar mas em níveis medulares inferiores, formando assim, o tracto córtico-espinhal anterior. Uma observação importante é de que nem todas as fibras córtico-espinhais são motoras: 40% provêm da área sensorial primária responsável por controle dos impulsos sensitivos. Como já mencionado, o tracto córtico-espinhal sofre influência do tracto rubro-espinhal e retículo-espinhal (ambos considerados vias extrapiramidais), com isso, lesões no tracto córtico-espinhal não causam hemiplegia mas somente hemiparesia e dificuldade em contrair voluntariamente os músculos da região afetada. Nestas lesões o movimento fracionado é perdido, a movimentação será grosseira, abrupta.

Para que identifiquemos uma lesão piramidal o sinal mais famoso da neurologia é utilizado: Sinal de Babinski - quando estimulamos de forma apropriada, o hálux desempenha um movimento em extensão.

O tracto córtico-nuclear também possui fibras motoras que descem pela corona radiada penetrando o joelho da cápsula interna terminando em neurônios (núcleos) presentes no tronco encefálico. Os núcleos nervosos que recebem esta via são: núcleo do III, IV e VI pares de nervos cranianos (responsáveis pela motricidade ocular); núcleo motor do V par de nervo craniano (responsável pela mastigação); VII par de nervo craniano (responsável pela musculatura da mímica) e XII par de nervo craniano (responsável pela motricidade da língua). O tracto córtico-nuclear possui muitas fibras nervosas que não decussam. Uma observação importante é que a musculatura da cabeça possui representação bilateral no humúnculo de Penfield, logo uma lesão na cápsula interna unilateral provocada, por exemplo, por um acidente vascular, não provocará paralisia desta musculatura: faringe, laringe, supercílio.



Figura acima mostra o tracto córtico-espinhal, responsável pela motricidade voluntária do sistema nervoso central.


Vias Extrapiramidais. As vias ditas extrapiramidais influenciam na via piramidal através de vias que não sofrem decussação: via rubro-espinhal, via tecto-espinhal, via retículo-espinhal e via vestíbulo-espinhal.

1. Via Rubro-Espinhal: responsável pelos músculos distais dos membros.

2. Via Tecto-Espinhal: responsável pelos músculos da cabeça.

3. Via Vestíbulo-Espinhal: responsável pela manutenção do equilíbrio.

4. Via Retículo-Espinhal: responsável pelo controle (ritmicidade) da marcha.

a. Bulbar: desce pelo fascículo anterior inibindo os movimentos antigravitários.

b. Pontina: desce pelo fascículo lateral estimulando os movimentos antigravitários.

Vale lembrar que todas estas vias possuem um mesmo destino: neurônio motor anterior, presente no corno anterior do H medular - formando assim a via final comum ou via de Sherrington.

Nas síndromes que acometem o neurônio motor inferior observamos paralisia, hipotonia e arreflexia. Já nas lesões do neurônio motor superior ocasionadas por um acidente vascular cerebral, por exemplo, observamos inicialmente uma paralisia flácida seguida de paralisia espástica com hipertrofia e hiperrreflexia com sinal de Babinski positivo. Nas plegias podemos então inferir que além da via córtico-espinhal há também lesão das vias extrapiramidais.

• Neuroanatomia - Córtex Cerebral e Vias Eferentes - (Imagens - Parte I)

• Neuroanatomia - Córtex Cerebral e Vias Eferentes - (Imagens - Parte II)